ESPERANÇAS PARA A RIO+40 por Fernando Gabeira
O Corpus Christi é um feriado celebrado todo ano, a conferência da ONU de 20 em 20 anos. Qual a relação entre os dois? Na véspera do feriado, 83 mil carros
passaram pela ponte Rio-Niterói, rumo à região dos Lagos. No final da
tarde, atravessar a ponte tomava entre 50 minutos e uma hora. Pode-se argumentar que todos os feriados são assim. E que São Paulo é muito pior. Acontece que as coisas mudam nesse campo...
Há algumas semanas, o governo lançou um pacote estimulando a compra
de carros populares. Não é coisa nova, pois carros, recentemente, eram
vendidos em até 70 prestações. O objetivo de dotar cada pessoa de um carro pode ser bom para a
indústria. E pode até injetar um certo ânimo na economia, pelo seu poder
de alavancar também outros setores. O que ninguém calcula é o enorme prejuizo que o modelo de estímulo ao
carro próprio traz à sociedade. As obras de infraestrutura são caras e
não conseguem acompanhar o ritmo de crescimento da indústria. O tempo médio de deslocamento aumenta cada vez mais. Se todas as
pessoas perdem mais 15 minutos para atravessar uma região da cidade,
quanto custa esse prejuizo social? A indústria automobilística brasileira cresce numa proporção de 20
por cento ano, em períodos de prosperidade econômica. Projetar isto num
período de 50 anos é simplesmente imaginar o caos. Todos os especialistas em meio ambiente que virão para a Rio+20 condenam este modelo do carro individual,no Brasil ou fora dele.
Nós somos os anfitriões de uma grande conferencia internacional que
dirá o que é ou não sustentável. Ao mesmo tempo, mergulhamos de cabeça
num modelo condenado pelas limitações de infraestrutura e da própria
preservação planetária. O Corpus Christi é um feriado. Haverá outros para evitar congestionamento durante a Rio+20. Com tanto tempo livre, não custava nada pensar um pouco nas contradições que estamos vivendo. O Jornal do Brasil publicou, na década dos 60, uma espécie de
premonição dos tempos que vivemos hoje. Era uma reportagem intitulada:
Um susto pode matar Copacabana. O argumento era o de que se todos quisessem sair ao mesmo tempo do bairro, dificilmente escapariam com vida. Numa das eleições em que os cariocas votaram mais cedo e tentaram
aproveitar o feriado, houve um dos maiores engarrafamentos da história. As lições estão aí e estarão aí os maiores especialistas do mundo dizendo que desse jeito não vai dar pé. Será que na Rio+40 alguma coisa vai mudar nas nossas escolhas de
movimento na grande cidade? Ou teremos de fazer a conferencia pela
internet?
Fernado Gabeira foi Deputado Federal pelo PV.
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A CARTA ROUBADA por Marina Silva
O Brasil não tem mais um Código Florestal, mas uma confusão jurídica. Um
amontoado de remendos cuja função é semelhante à de uma pinguela, uma
ponte improvisada no tronco de uma árvore abatida, para atravessar o
período da Rio+20. Depois, o empenho em destruir a legislação ambiental
certamente prosseguirá.
A versão: apesar de já ter o texto do novo Código "Florestal", o governo
só o mostrou três dias depois da pomposa entrevista ministerial. Todos,
inclusive jornalistas, às cegas, com acesso só à versão, feita em
PowerPoint, de que a presidente Dilma chancelou - em alguns aspectos até
piorou - o texto, ao arrepio da palavra empenhada, em "respeito ao
Congresso e à democracia".
Só que os fatos, mesmo quando distorcidos, estarão sempre, como na carta
roubada de Edgar Allan Poe, bem ali, no lugar onde se imaginava tê-los
escondido.
Quatro dias depois, não no porta-cartas, mas no " Diário Oficial", estavam as inúmeras maldades da caixa de Pandora, sempre indiferente ao futuro, na velha porção ruralista: anistia aos desmatadores e incentivo a novos desmatamentos. Exigências abaixo do mínimo aceitável cientificamente de proteção aos topos de morros, encostas, veredas, apicuns, margens de rios, manguezais etc. Está sendo abolida, na prática, a função social da propriedade e o direito dos brasileiros a um ambiente saudável. Os donos da terra são agora donos do ar, das águas, da fauna e da flora, para delas dispor como bem entender a lei do mais forte, que fizeram prevalecer. Em troca, devem apenas evitar comemorações públicas, fingir contrariedade aceitando os vetos parciais e criticar os "radicais" ambientalistas, que não querem sorrir para a foto. Estes apenas alertam para a verdade simples: nem tudo pode ser objeto de negociação política. Se uma nascente, para não secar, precisa de certa quantidade de vegetação ao seu redor, como podem parlamentares decidir que não?
Quatro dias depois, não no porta-cartas, mas no " Diário Oficial", estavam as inúmeras maldades da caixa de Pandora, sempre indiferente ao futuro, na velha porção ruralista: anistia aos desmatadores e incentivo a novos desmatamentos. Exigências abaixo do mínimo aceitável cientificamente de proteção aos topos de morros, encostas, veredas, apicuns, margens de rios, manguezais etc. Está sendo abolida, na prática, a função social da propriedade e o direito dos brasileiros a um ambiente saudável. Os donos da terra são agora donos do ar, das águas, da fauna e da flora, para delas dispor como bem entender a lei do mais forte, que fizeram prevalecer. Em troca, devem apenas evitar comemorações públicas, fingir contrariedade aceitando os vetos parciais e criticar os "radicais" ambientalistas, que não querem sorrir para a foto. Estes apenas alertam para a verdade simples: nem tudo pode ser objeto de negociação política. Se uma nascente, para não secar, precisa de certa quantidade de vegetação ao seu redor, como podem parlamentares decidir que não?
O Brasil será, enquanto não recuperar o bom-senso nessa área, uma terra sem lei. A violência recrudesce e não se passa uma semana sem um assassinato no campo ou na floresta. A discussão do código concentrou-se em anistiar ou não quem desmatou, se até 2008 ou antes, se deveriam ou não reflorestar, se toda a área ou só uma parte etc. Resumindo, em que medida legalizar os crimes ambientais. E o pior, o acordo político decidiu que a ilegalidade ambiental compensa. Vamos agora à Rio+20 com o governo exibindo ao mundo os bons frutos da queda do desmatamento, obtidos com a lei que está sendo abolida. Mas há uma falha, no mundo como no Brasil, nesse sistema: a natureza não o obedece. E a sua versão será o futuro real, a palavra final, a lei que "pega" e que pune.
Marina Silva, cidadã brasileira.
(Folha de São Paulo - edição 01/junho/2012)
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SUSTENTABILIDADE, UM OLHAR PARA FORA...
por Dal Marcondes
Muita gente ainda não compreende o que é sustentabilidade e porque
deveria mudar seu modo de vida. A sociedade certamente não vai
empreender as transformações necessárias se não estiver convencida da
urgência das mudanças. Dias atrás estava conversando com um bom
amigo, que não trabalha nem com comunicação e nem com meio ambiente e
sustentabilidade, sobre carros, trânsito e modelo de desenvolvimento.
Ele vive em Santos, uma cidade que eu adoro por ser, ainda, uma boa
referência em estrutura urbana. Depois de 15 minutos de conversa percebi
que estamos em lados completamente opostos em relação ao que seja uma
vida confortável e sustentável. Comentei que se Santos continuasse a
receber automóveis no ritmo atual, em muito pouco tempo estaria
completamente engarrafada, com os mesmo problemas de mobilidade que São
Paulo já enfrenta. Santos é uma cidade plana, pequena sob o ponto
de vista territorial, concentrada em temos de ocupação. Ou seja, ideal
para trajetos a pé, de ônibus e de bicicleta, sem falar de um tal VCL - Veículo Leve Sobre Trilhos - dos qual se fala desde que o Mário Covas
era governador (ele também um santista). Minha surpresa veio quando meu
amigo simplesmente respondeu que esse era um preço a ser pago pelo
conforto. De pronto perguntei, “mas que conforto"?
Em minha visão
de jornalista especializado em temas ligados à sustentabilidade,
conforto é uma cidade onde a mobilidade é garantida através de meios que
não imponham mais poluição e nem ocupação desordenada das ruas.
Transporte público, espaços abertos, bicicletas e uns poucos carros que
são usados apenas por necessidade absoluta. Argumentei que andar de
táxi, por exemplo, pode ser muito mais barato do que andar de carro. Não
se corre o risco de levar multas, não é preciso pagar estacionamento e
nem sequer é preciso se preocupar com tomar um chopp a mais. Por
mais que eu tentasse explicar as vantagens individuais e coletivas em
ter uma cidade com menos carros e mais espaço para as pessoas, meu amigo
não conseguia entender. Para ele eu devo ter parecido uma espécie
qualquer de idiota que não entende o quanto um carro oferece de
conforto. Claro que compreendo isso, eu mesmo tenho um carro. No
entanto, a questão é como usamos o carro e para que. Por exemplo, se
locomover para um escritório, pagar um estacionamento e retornar no
final do dia é uma atividade que pode muito bem ser feita de outra
forma, principalmente em Santos.
Outra coisa que constatei, pela
enésima vez, é o quanto as questões relacionadas ao meio ambiente, à
sustentabilidade, aquecimento global etc estão longe das pessoas que não
estão diretamente envolvidas com este tema. Certamente a culpa não é
destas pessoas, mas sim das outras, aquelas que compreendem a
importância de ser sustentável, mas que não estão conseguindo mostrar o
quanto isso é importante para todo mundo. Não se trata apenas de
economizar água, energia, separar lixo para a reciclagem ou outras
tantas atividades que são preconizadas nas cartilhas de educação
ambiental. É preciso estimular o pensamento sustentável, que favorece um
olhar mais sistêmico sobre a realidade. Mas como fazer isso? Nos
últimos anos temos trabalhado na Envolverde para informar e formar uma
parte da sociedade sobre a transversalidade necessária na abordagem dos
temas socioambientais e econômicos. Não estamos mais na fase dos
diagnósticos. A maior parte dos problemas socioambientais graves que
devem ser enfrentados com urgência pela sociedade já está devidamente
identificada, catalogada, estudada e diagnosticada, com suas causas e
consequências exaustivamente conhecidas.
A questão agora é saber
como convencer as pessoas a mudar. As milhões ou bilhões de pessoas mais
afetadas pelos problemas sociais e ambientais não têm a capacidade de
reação necessária para alterar a realidade de seu entorno. E as milhões
ou bilhões de pessoas que precisariam mudar o modo de vida, ou
simplesmente não sabem disso, ou não acham necessário, ou estão se
lixando para os problemas. A questão que se coloca é como
conseguir que a sociedade entenda o sentido de urgência dos problemas
ambientais, em especial do aquecimento global, do desmatamento e da
degradação de ecossistemas, como fazer a atual geração de seres humanos
no planeta compreender que deve existir uma “solidariedade
intergeracional”, ou seja, que precisamos preservar recursos para as
pessoas que ainda não nasceram - como prevê o triple bottom line.
Aqueles
que compreendem esta urgência devem superar o sentimento de frustração
que está se sobrepondo à necessidade de continuar falando, escrevendo,
ensinando e pregando. Mas, principalmente, é preciso compreender que a
grande maioria das pessoas ainda não está convencida, por muitos
motivos, de que precisam mudar.
Dal Marcondes é
jornalista especializado em jornalismo econômico, diretor e editor
responsável da Envolverde – Revista Digital e presidente do Instituto
Envolverde
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